A Prática Espiritual Que Liberta Seu Espirito | Eckhart Tolle

A maior parte das pessoas acredita em tudo o que passa pela própria cabeça. Um pensamento aparece, e logo a pessoa aceita a sua fantasia como verdade. Ela nem percebe que está sendo conduzida por uma sequência de fantasias que se repetem todos os dias.

Repare na sua própria vida. Quantas vezes você revive a mesma preocupação? Quantas vezes lembra de uma conversa antiga, imagina uma discussão que nem aconteceu ou cria medo de algo que talvez nunca aconteça? A mente faz isso o tempo todo. Ela produz pensamentos fantasiosos sem parar e tenta convencer você de que cada um deles merece toda a sua atenção.

Mas existe uma prática espiritual muito simples: não leve os pensamentos a sério.

Isso não significa negar o pensamento. Também não significa tentar esvaziar a mente à força. Lutar contra os pensamentos pode gerar um efeito contrário, quanto mais você luta para não pensar, mais a mente produz novos pensamentos. É como tentar impedir o curso de um rio. Você apenas se cansa.

Você não precisa lutar contra o rio de pensamentos, o caminho é outro.

Antes de continuar, vale lembrar uma antiga história da tradição Zen.

Conta-se que um mestre caminhava com seu discípulo quando pediu que ele fosse buscar água em um lago. Ao chegar ao lago, o discípulo viu que uma carroça havia acabado de atravessar o lago, levantando lama e deixando tudo barrento. Ele voltou e disse ao mestre que a água estava imprópria para beber. O mestre disse ao dissipulo que voltasse, sentasse a margem do lago e esperasse um pouco.

Depois de algum tempo sentado na margem do lago, sem que ninguém tivesse feito nada, a lama havia descido naturalmente para o fundo, e a água estava limpa e transparente. Ele pegou a agua limpa e levou ao mestre. Então o mestre explicou para ele que a mente funciona da mesma maneira. Quando a mente é agitada pelos pensamentos, tudo parece confuso. Mas, quando paramos de agitar a mente e sentamos a margem sem fazer nada e simplesmente esperamos, a agitação se desfaz por si mesma, e a mente volta naturally ao seu estado de tranquilidade e pureza.

É assim que acontece com os pensamentos. Não é preciso lutar contra eles nem tentar expulsá-los. Basta observá-los sem alimentá-los, e, com o tempo, eles perdem a força e se dissipam naturalmente.

Quando um pensamento surgir, apenas perceba que ele apareceu. Não brigue com ele. Não corra atrás dele. Também não o transforme em um inimigo. Apenas veja que ele está ali.

Não entre no rio de pensamentos, não tente lutar contra a correnteza, apenas sente a margem do rio de pensamentos e observe ele seguir seu curso. Não tente para-lo, não entre nele, apenas sente a margem e observe, sem fazer nada.

Imagine que você está sentado em paz e, de repente, lembra de um problema. Em vez de mergulhar naquela história, apenas reconheça: "Existe um pensamento sobre um problema." Depois continue presente onde você está.

Se surgir uma lembrança triste, reconheça: "Existe uma lembrança." Se aparecer um medo, reconheça: "Existe um medo." Se surgir uma crítica contra alguém, reconheça: "Existe um julgamento."

Você não precisa entrar no rio, não precisa lutar contra a correnteza, apenas observe sem reagir.

Você precisa perceber algo muito importante. Existe o pensamento, mas também existe alguém que percebe esse pensamento.

Quem percebe não é a coisa percebida.

Quem percebe permanece sempre presente enquanto as coisas percebidas aparecem e desaparecem.

Essa presença espiritual que percebe sempre esteve aí, mas quase nunca fica claro porque acreditamos que somos as coisas percebidas e não o percebedor.

Quando você tem essa percepção espiritual, a consciência de quem você realmente é. Você nota que um pensamento apareceu, mas já não está completamente envolvido com ele. O simples fato de separar o percebedor da coisa percebida muda tudo. Os pensamentos continuam aparecendo e desaparecendo, mas eles perdem a força de comandar você.

Faça essa experiência durante o dia.

Enquanto trabalha, observe sua mente.

Enquanto conversa com alguém, observe sua mente.

Enquanto espera em uma fila, observe sua mente.

Você verá quantas vezes ela volta para o passado ou corre para o futuro.

Ela lembra erros antigos.

Ela revive ofensas.

Ela cria expectativas.

Ela inventa preocupações.

Ela promete felicidade em um amanhã que ainda não chegou ou ameaça você com um sofrimento que talvez nunca exista.

Tudo isso acontece dentro da mente.

Mas a vida acontece apenas neste momento.

Por isso, volte sua atenção para o que está acontecendo agora.

Sinta sua respiração.

Perceba seu corpo.

Escute os sons ao seu redor.

Olhe com atenção para a pessoa que está diante de você.

Saia das histórias mentais e foque naquilo que está fazendo.

Sempre que perceber que a mente começou a criar histórias, apenas volte para a realidade. Sem irritação. Sem culpa. Sem dizer que fracassou. Apenas volte para o momento presente.

No começo isso acontece poucas vezes.

Depois acontece mais.

Com a prática, você começa a viver com mais presença.

Também não transforme seus pensamentos em sua identidade.

Ter um pensamento de medo não faz de você uma pessoa dominada pelo medo.

Ter um pensamento de raiva não faz de você a própria raiva.

Ter um pensamento ruim não define quem você é.

Os pensamentos aparecem e desaparecem. Eles mudam o tempo inteiro.

Aquilo que percebe todos eles permanece.

Essa presença espiritual não depende do passado nem do futuro. Ela existe agora.

É nela que nasce a verdadeira paz.

As antigas tradições espirituais ensinaram essa mesma verdade usando nomes diferentes. Alguns a chamaram de Cristo interior. Outros a chamaram de natureza de Buda. Alguns de Espírito Santo, centelha divina, o observador e etc. Os nomes podem mudar, mas apontam para a mesma realidade: existe em cada ser humano uma presença espiritual viva que está além do fluxo dos pensamentos.

Quando você aprende a reconhecer e permanecer nessa presença, deixa de ser conduzido automaticamente pelas fantasias da mente.

Você continua pensando quando é necessário.

Continua lembrando quando é útil.

Continua fazendo planos quando chega a hora.

Mas já não vive preso ao movimento incessante dos pensamentos.

O espírito aprende a domar a mente.

Pouco a pouco, o sofrimento criado pela própria mente perde sua força.

No lugar da agitação nasce uma tranquilidade que não depende das circunstâncias.

O amor encontra espaço para crescer.

A alegria deixa de depender de acontecimentos externos.

A criatividade aparece com naturalidade.

E uma paz profunda começa a fazer parte da sua vida.

Tudo isso começa com um passo muito simples.

Quando um pensamento surgir, não acredite imediatamente nele.

Perceba que ele é somente um pensamento.

Depois volte, mais uma vez, para a realidade deste momento.

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